Talvez o Giramundo seja uma das maiores companhias de teatro de bonecos do mundo. Coisa rara de se ver, que contraria a tendência dos pequenos grupos teatrais dedicados a fantoches dos cinco continentes.
Diga-se de passagem: assim como a música e a dança, de um pólo a outro do planeta cada lugar possui técnicas únicas na representação com bonecos. Vão desde as marionetes com cordas e o mamulengo – manipulados como luva –, até o teatro de sombras e os bonecos vietnamitas, que se apresentam sobre a água. As origens são, como muitos tipos de arte, rituais sagrados e contação de histórias folclóricas, que em evolução natural deixam de lado as limitações.
No Brasil, onde fantoches são considerados entretenimento infantil, poucos deram tanta importância a essa modalidade quanto Álvaro Apocalypse. Mineiro, de Ouro Fino, Álvaro sempre brincou de construir bonecos com os irmãos. Nos meados da década de 1950, foi para Belo Horizonte estudar Belas Artes com Guignard e acabou participando dos primórdios da Escola de Belas Artes da UFMG, onde lecionou até a morte, em 2003. Apocalypse foi uma das figuras mais notáveis das artes plásticas mineiras da geração pós-Guignard, ao lado de Yara Tupinambá, Jarbas Juarez, Eduardo de Paula, entre outros.
Na sala de aula, na década de 1960, Álvaro conheceu Tereza Veloso, com quem se casou, e Madu Vivacqua. O trio começou a produzir e manipular fantoches, inspirados pelo conhecimento que Álvaro trouxe da temporada de estudos na França, em 69. Desse furor criativo e associação de talentos tão diversos quanto grandiosos, em outubro de 70 começam as atividades do Grupo Giramundo de Teatro de Bonecos, em um ateliê-laboratório em Lagoa Santa.
Manipulação da magia
Entre “A Bela Adormecida” – primeira montagem do grupo, de 1971 – e “Vinte Mil Léguas Submarinas” – espetáculo mais recente –, o Giramundo reinventou e impressionou, com peças cada vez mais ousadas.
“Cobra Norato”, adaptado da obra do escritor antropófago Raul Bopp, é a montagem mais celebrada, com direito à turnê internacional e alguns dos prêmios mais importantes das artes cênicas do Brasil e de fora do país. Mas é certo que a insana “As Relações Naturais”, do dramaturgo de codinome Qorpo Santo, que compara as relações familiares com um bordel, mais uma prova do universo que pode ser explorado pelos fantoches carismáticos e ambiciosos do grupo. A não-linearidade e os personagens bizarros mostraram de vez que o teatro de bonecos não se limita ao gênero infantil.
E menos ainda aos palcos e cortinas. Na montagem do metalingüístico “Pinocchio”, a primeira grande peça sem Álvaro, o grupo resolveu romper mais uma barreira, com a implantação da projeção de vídeos. Tendência confirmada nas “Vinte Mil Léguas” de Júlio Verne.
No Museu do Giramundo, no bairro Floresta, monitorado pelo ator e manipulador Neto – como Rooney Tuareg prefere ser chamado –, o acervo de aproximadamente 1500 bonecos, nos deixa imersos num mundo mágico. Pode ser um clichê dos bem hiperbólicos, mas a gente crê que cada uma das milhares de marionetes vá se erguer e, com aquela suavidade robótica típica, nos dizer alguma coisa. Na exposição, a gente vê bem de perto a variedade na estética dos fantoches, nas técnicas de manipulação e complexidade dos espetáculos.
Diversidade
Observada na criação do grupo e nas peças, a diversidade é um dos pilares que mantém o Giramundo ativo. A juventude, atraída pela arte maravilhosa, é cultivada nas bases do grupo. “O Giramundo sempre recorreu a alunos e estagiários para integrar o grupo. Alunos de todas as áreas, mas a maioria são alunos de Belas Artes, Artes Cênicas, Design…”, revela Ulisses Tavares, diretor de espetáculos, com 20 anos de casa. Ele mesmo entrou ainda quando cursava Belas Artes, captado pelo professor Álvaro.
Raimundo Bento, ator e manipulador, também veio das artes plásticas. Assim como Ana Fagundes, flagrada na frente do palco. Eles são parte do corpo fixo de 6 atores/manipuladores. Ela começou botando a mão na massa, na produção dos bonecos. Ele veio de Pernambuco, com uma bolsa de estudos para a escola do Giramundo. Acabou ficando por aqui, para participar do que ele crê ser o motivo de sucesso da trupe. “Acho o teatro de bonecos legal, traz a empatia do público automaticamente”, revela.
33 espetáculos
É de não se limitar, que talvez venha a importância do Giramundo no cenário brasileiro. É reconhecido por gente como o dramaturgo Pedro Paulo Cava, que não esconde a admiração. “O Grupo este ano está completando 40 anos e cresceu em tal proporção que se tornou referência em teatro de bonecos no Brasil”, explica.
Com 40 anos nas costas e 33 espetáculos no currículo, comemorar é um dever. Para isso, entre os dias 15 e 31 de outubro, o Giramundo expôs, no Ponteio Lar Shopping, alguns dos bonecos que marcaram a carreira do grupo. Com direito à apresentação da cativante peça “Cerrado”, da série de Mineteatro Ecológico, no dia 30. A montagem, que trata da preservação daquela vegetação, é composta por paródias hilárias de músicas de roda, e ausente dos pedantismos típicos da panfletagem pró-ecossustentabilidade.
Nos dias 13 e 14 de novembro, é a vez de Nova Lima receber, na Casa Aristides, a exposição “Giramundo 40” que, além dos bonecos, exibe quadros de Álvaro Apocalypse.
Vale cada reverência.
Museu Giramundo
R. Barão de Varginha, 235 – Floresta
Telefone: (31) 3446-0686
Funcionamento: Terça à sexta-feira, das 9h às 19h e das 13h às 17h
Casa Aristides
Praça Coronel Aristides, s/n – Centro de Nova Lima
Funcionamento: Dia 13 de novembro: das 10h às 18h
Dia 14 de novembro: das 10h às 17h
Versão original do texto publicado no jornal Turismo de Minas









