As mãos erguidas saúdam a batalha de conhecimento. Entre um turno e outro da disputa, o MC Monge, apresentador do Duelo de Mc’s e um dos componentes da Família de Rua, coletivo que organiza o evento, manda a real. Acontece que no dia três de setembro, a Polícia Militar, acompanhada por câmeras da Rede Globo, resolveu dar uma de “Tropa de Elite” e entrar com pé na porta e soco na cara, numa operação em pleno Duelo. O resultado foi um espectador baleado. “Eles [o sistema] fazem isso porque sabem que é o movimento popular que pode tirar eles de lá”, discursa seguido de aplausos e gritos de apoio. O MC Dmorô, outro apresentador, acompanha. “E quem tiver twitter, coloca lá a hashtag ‘vai pro inferno Rede Globo’” e manda um gesto obsceno. Monge emenda com um salve a todos os movimentos populares do Brasil e do mundo.
“Na verdade, cara, a gente é muito insistente com a Polícia Militar”, explica PDR Valentim, um dos cinco membros ativos da Família de Rua. “A gente já se reuniu com o batalhão de polícia que toma conta aqui da região várias vezes, fizemos várias cartas, vários ofícios, fomos a várias comissões, reuniões” e o resto a gente conhece. A polícia começa a trabalhar por algum tempo e depois some. Só os fardados saírem, que o tráfico e o consumo de drogas volta a acontecer sem disfarce. “Aí eles vêm com o discurso de que estavam monitorando há algum tempo”, continua. Fora a perna ferida do homem baleado, o resultado foi o medo, apreensão e sentimento de insegurança disseminado por quem deveria dar segurança. Angústia, revelada por PDR, e revolta para os discursantes no palco.
Ocupação
Há três anos a parte de baixo do o viaduto Santa Tereza (Rua Aarão Reis, em frente ao número 554, mais ou menos) é ocupada pelo Duelo de Mc’s. A ideia veio a partir de uma etapa da Liga dos Mc’s, disputa nacional criada no Rio de Janeiro, executada em BH, no Lapa Multishow, em agosto de 2007. “A galera pagou ingresso para ver e foi muito bacana, repercutiu bastante”, comenta PDR. Uma semana depois, os primeiros duelos aconteceram na Praça da Estação.
A Família de Rua é quem organiza tudo ali. O coletivo cultural foi criado especialmente para a demanda gerada pelo Duelo. Com o crescimento, o evento passou a precisar de caixas de som e de diversidade. PDR esclarece: “Era vontade pessoal de cada um [dos componentes da Família de Rua] que existisse não só um evento do elemento Mc, mas algo que fosse da cultura hip hop”. Convidaram grupos de rap e black music para tocar no duelo, chamaram grafiteiros para enfeitar o lugar, DJs para tocarem os beats do duelo, e bboys e bgirls para a dança.
Hoje, o Duelo de Mc’s é parte da agenda cultural da cidade. É algo entre o mainstream e o underground. Divulgado nos maiores veículos de comunicação do estado, o evento não se restringe ao movimento hip hop de BH e região metropolitana. Há presença maciça de gente em busca de cultura alternativa.
Fora a estranha operação policial, o evento sempre corre bem. Apesar de ter, como diz PDR, a galera que vai para atrapalhar, que tem em todo lugar. Mas ali, o papo é reto. “Se não quiser vir para respeitar, sinceramente, não venha”, diz Monge em uma de sua falas no palco, com o apoio de PDR. “Eu tenho que respeitar o cara que fuma maconha, mas o cara que fuma maconha tem que respeitar o espaço”. Deixam bem claro que ali é lugar do que é legítimo, assim como a cultura de rua: expressão pura, vinda do movimento popular, de quem precisa gritar para ser ouvido.